Nesta semana fui fazer uma entrevista com uma empresa que me contatou por outra empresa de HeadHunting que me achou. Multinacional, prédio de luxo … mobília moderna e com estilo.
Era para um trabalho de implementação de metodologia (inicialmente a proposta era um gerente de projetos). Cheguei 15 minutos antes e fiquei esperando na recepção. … 1h e 5 minutos depois, descobri que meu entrevistador não viria, estava ocupado com o cliente e nem chegou no escritório.
Ele me ligou para fazer a entrevista via celular. (estamos falando de uma empresa multinacional de prestação de serviço).
Conversamos e no meio da conversa veio a frase “hands on”… ai descobri que na verdade estavam contratando um “departamento de um homem só”, tem de cobrar o escanteio … correr e cabecear para o Gol… “para ser competitivo”, segundo meu entrevistador.
Até ai, fazer o quê… tem gente que acredita nisto, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa… Duende… o tempo traz a verdade…
Ai chegou a hora da negociação…
ELE: “É um contrato de 6 meses…”
EU: “Quem me contatou disse que era de 1 ano…
ELE: ” Pode ser, se você fizer um excelente trabalho… Ai eles continuam por 1 ano… só depende de você…faz parte do seu desafio …”
EU: OK, então custa R$ XXX…
ELE: Tudo isto !, eu estava imaginando a metade…
EU: Expliquei que como PJ (Pessoa Jurídica), temos que colocar os valores equivalentes aos encargos, que recolhemos impostos, estacionamento, alimentação e que eu pessoalmente até prefiro CLT para não ter os problemas de emissão de NF.
ELE: Ahhh… assim não dá, “o mercado” esta fazendo o valor CLT como PJ para ser competitivo. Você precisa entender que eu tenho que pagar a empresa que te encontrou, “tem o nosso” também e nosso cliente não vai poder pagar isto para mim, já que ele vai te alocar no principal cliente dele … Você sabe, o mercado anda muito apertado e ele tem de ser competitivo. Como CLT você custo o dobro do seu salário, um roubo que o governo nos impõe como empresários !
EU: Cliente do seu Cliente… ???!!!
ELE: Sim, para ser competitivo, “o mercado” pede que o Consultor (ai já não era mais gerente) assuma estes custos dos benefícios de CLT em prol da competitividade. Se meu cliente fosse pagar como CLT ou mesmo eu for te pagar como CLT, não temos margem de lucro e ai não conseguimos manter nosso negócio.
EU: Claro, com certeza… (nem eu, pensei comigo sendo educado e ficando daí em diante em silêncio contemplativo)
ELE: Gostei muito de vc…Te ligo até sexta… pensa bem, é um ótimo desafio !
Moral da História, teria de Sustentar uma cadeia de 3 empresas todo o mês até chegar em quem efetivamente precisa e paga pelo trabalho.
Claro que tudo isto é para ser Competitivo.
Se o cliente final, contratasse um profissional CLT diretamente, mesmo que pagasse todos estes encargos do processo CLT, ficaria mais barato, teria um profissional comprometido e integrado em seu processo. Mas a falsa idéia que terceirizar, fazer projetos com times voláteis ainda impera em um mercado que achou uma forma de fazer disto uma pirâmide ou “corrente da felicidade”, ou porque não dizer, Escravagismo, já que não se tem compromisso com o terceiro enquanto este tem TODOS os compromissos, principalmente as taxas e impostos.
Como os donos de terras e fazendeiros do Brasil colonial, colocamos esta mão de obra para trabalhar em nossas terras já que deram o azar de não terem as terras ou o cargo CLT.
Já que o mercado esta precisando de mão de obra qualificada, porque tem tanta gente trabalhando como Terceiros ?
Seriam incompetentes ou desqualificados ?
Porque se forem, não servem, nem para terceirizar…
Muita gente acomodada (o profissional na empresa e não a empresa que precisa do trabalho para ser Competitiva) que contrata este tipo de serviço, tem outra preocupação:
Se a pessoa que chega de fora for mais qualificada do que quem a contratou, vai haver “sombra”.
Como evitar a revolta na Senzala ? - Terceirizando, os profissionais acomodados tem o melhor dos mundos para se manterem nas cadeiras, sem correr riscos ou se desacomodarem do conforto que um contrato CLT e um bom título pode trazer.
O terceiro tem obrigações e não tem direitos. Posso, como “funcionário” questionar sem ter razão, afinal, sou eu quem o contratou, sou eu quem assina a NF para que ele receba, sou eu que entendo o que preciso e não ele que chegou agora … Boas idéias tenho eu, ele trabalha sobre o que eu penso. Eu conheci uma empresa que terceirizava toda sua área de Ti. Não era Core Business, diziam.
Para diferenciar os terceiros dos funcionários, se colocava um sinal na frente do Login de acesso.
Era o jogo da velha “#” que também é chamado de tralha.
Sim, lá o terceiro era chamado de tralha o que “ajudava” muito no trabalho de equipe…
Se ele for contra “meus interesses”, mesmo a favor da empresa e do negócio, posso pedir para trocar e pronto, não vai ter RH para ter de se justificar, nem encargos. Tomo a decisão no rompante e ainda tenho uma desculpa para atrasar o projeto. Se o projeto “patinar” já temos um culpado, se der certo foi minha gestão que os conduziu a este sucesso.
É perfeito, vamos encomendar mais um navio negreiro porque temos mais projetos para fazer.
Quem perde com isto são os profissionais de Rh, já que os mesmos passam longe dos terceiros que é assunto de quem os contratou.
Com o Rh enfraquecido, os programas de qualificação interna desmoronam junto com os processos de avaliação. Ninguém vai nas universidades buscar recursos e os acomodados não tem quem os incomodem, nem avaliações de competência, nem GAPS de qualificação.
Perde o verdadeiro empresário em prol da idéia que temos que focar em nosso “Core Business”.
Se algo acontece ou precisa acontecer em nossa empresa e isto esta ligado a nosso negócio, mesmo que indiretamente, faz parte do Core Business e pronto, não adianta varrer para debaixo do tapete.
Pior, terceirizando, o conhecimento gerado no trabalho fica disponível para a concorrência no dia seguinte que o projeto acaba ou até no meio deste já que também não existe comprometimento dos terceiros para com seu negócio.
Valores financeiros pessoais tomam o lugar dos valores da empresa como grupo, colocando por terra todo o investimento em campanhas internas de retenção de talentos, empreendedorismo, capacitação e etc.
Um dia a empresa acorda quebrada, agonizante ou comprada por um concorrente mais astuto que contratou o terceiro que foi treinado em seu negócio ou processo com o nome de “Desafio” ou de “Projeto” e porque não dizer: Terceirização.
Nestes termos, realmente o mercado sempre vai ter falta de profissionais qualificados., mesmo que eles estejam bem diante do seus olhos ou na casa do seu concorrente.
Basta procurar nos terceiros… eles já estão dentro da sua empresa (sua ou na do concorrente) ou estão na sua porta, famintos de oportunidades, conhecem ou querem conhecer o negócio ou o processos e ainda podem conhecer a concorrência.
Pena que as empresas de terceirização tem em seus contratos clausulas para que tais idéias “Abolicionistas” não subvertam o sistema.
A carta de alforria sai caro e é fortemente desestimulada por quem quer ganhar sem risco e sem trabalhar.
Ai você recebe no email uma matéria dizendo que falta gente capacitada no mercado … que as empresas precisam atrair novos talentos ou enfrentarão problemas de crescimento…
Não é bom andar armado nestes dias … para ser competitivo…
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